{"id":2893,"date":"2026-08-03T21:33:54","date_gmt":"2026-08-04T00:33:54","guid":{"rendered":"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/?p=2893"},"modified":"2026-08-03T21:41:09","modified_gmt":"2026-08-04T00:41:09","slug":"rainha-debaixo-das-unhas-mulheres-pretas-da-periferia-de-belem-reencenam-a-saga-de-agotime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/rainha-debaixo-das-unhas-mulheres-pretas-da-periferia-de-belem-reencenam-a-saga-de-agotime\/","title":{"rendered":"Rainha debaixo das unhas: mulheres pretas da periferia de Bel\u00e9m reencenam \u201cA Saga de Agotim\u00e9\u201d"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_E7871-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2902\" style=\"width:779px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_E7871-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_E7871-300x225.jpg 300w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_E7871-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>O elenco realizou os ensaios na Escola Estadual Santo Afonso em Bel\u00e9m<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quadra da Escola Estadual Santo Afonso, no bairro do Tel\u00e9grafo, em Bel\u00e9m, tem sido, nas \u00faltimas semanas, um territ\u00f3rio de reinven\u00e7\u00e3o. Entre linhas de futsal j\u00e1 quase apagadas e traves que lembram campeonatos escolares de outros tempos, o som que domina o espa\u00e7o agora n\u00e3o \u00e9 o do apito do juiz, mas o dos tambores, das palmas, das vozes que se aquecem. No lugar de uniformes esportivos, saias rodadas, panos coloridos, turbantes, corpos de mulheres pretas em deslocamento constante. \u00c9 ali que um grupo de artistas fabrica, passo a passo, \u201cA Saga de Agotim\u00e9\u201d, espet\u00e1culo de dan\u00e7a afro dirigido por Taynara Garcia, que estreia nos dias 6 e 7 de agosto, \u00e0s 19h, no Teatro Esta\u00e7\u00e3o Gas\u00f4metro, em Bel\u00e9m. A montagem, contudo, n\u00e3o \u00e9 apenas mais um t\u00edtulo na agenda cultural da cidade: \u00e9 um rito c\u00eanico, um gesto pol\u00edtico e uma convoca\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria de uma rainha africana que o Brasil tentou reduzir \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de escravizada, mas que insistiu em guardar sua realeza debaixo das unhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de chegar ao Gas\u00f4metro, o espet\u00e1culo atravessa uma hist\u00f3ria que mistura forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, oficinas de dan\u00e7a, letramento racial e a for\u00e7a da cultura negra perif\u00e9rica. Taynara Garcia, 29 anos, mulher preta, moradora do Tel\u00e9grafo, licenciada em dan\u00e7a pela Universidade Federal do Par\u00e1 e atualmente mestranda, gosta de narrar o surgimento da montagem a partir de um ponto preciso: a Funda\u00e7\u00e3o Curro Velho, institui\u00e7\u00e3o cultural de Bel\u00e9m que h\u00e1 d\u00e9cadas forma crian\u00e7as, jovens e adultos em diversas artes. Foi ali, em oficinas de dan\u00e7a afro-brasileira que ela ministrava, que a ideia de transformar o resultado das aulas em espet\u00e1culo come\u00e7ou a tomar corpo. Em um primeiro momento, a proposta era simples: apresentar, ao final do ciclo, o que vinha sendo constru\u00eddo, em formato de mostra. Mas o processo foi ganhando outra densidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu estava ministrando aulas para as turmas de dan\u00e7a afro-brasileiras, e fomos convidadas a apresentar o resultado em um formato de espet\u00e1culo, ent\u00e3o a saga de Agotim\u00e9 come\u00e7a a aparecer nesse processo\u201d, conta Taynara, relembrando que aquele convite deslocou a oficina para o campo da cria\u00e7\u00e3o c\u00eanica. O que poderia ser apenas uma apresenta\u00e7\u00e3o de encerramento virou, ent\u00e3o, a primeira encarna\u00e7\u00e3o de uma narrativa que n\u00e3o caberia mais s\u00f3 na sala de aula. Ela e as alunas conseguiram, naquele momento, apresentar \u201cdurante tr\u00eas noites um espet\u00e1culo que tinha dan\u00e7as afro-brasileiras, algumas dan\u00e7as tradicionais beninenses e percuss\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"567\" height=\"414\" src=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Imagem3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2904\" srcset=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Imagem3.png 567w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Imagem3-300x219.png 300w\" sizes=\"(max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Taynara Garcia destaca que partiu de uma pesquisa que envolveu tamb\u00e9m sua pr\u00f3pria identidade<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre experimentos coreogr\u00e1ficos e pesquisas de movimento, a hist\u00f3ria de uma rainha africana, trazida \u00e0 for\u00e7a para o Brasil, encontrava forma no corpo de jovens mulheres negras amaz\u00f4nidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa rainha \u00e9 Agotim\u00e9. A tradi\u00e7\u00e3o oral e estudos sobre religi\u00f5es afro-brasileiras contam que ela era uma rainha do reino do Daom\u00e9, na \u00c1frica Ocidental, capturada, traficada e escravizada em territ\u00f3rio brasileiro. No Maranh\u00e3o, especialmente, circula a narrativa de que ela foi levada para trabalhar em minas de ouro. Ali, submetida ao regime brutal da escravid\u00e3o, Agotim\u00e9 teria encontrado uma brecha para exercer, ainda que em sil\u00eancio, sua ast\u00facia e sua realeza: acumulava p\u00f3 de ouro debaixo das unhas, raspando, guardando, escondendo o m\u00ednimo que podia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o tempo, aquele ouro, min\u00fasculo ao olhar de quem a vigiava, tornou-se suficiente para que ela comprasse sua pr\u00f3pria liberdade. A partir dessa conquista, que desloca a posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima passiva para a de agente de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, Agotim\u00e9 passou a reunir, em torno de si, outras pessoas negras que a reconheciam como rainha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como a ordem colonial n\u00e3o toleraria abertamente uma realeza africana em solo brasileiro, os cultos organizados por ela aconteciam de maneira discreta, quase clandestina. Dessa trama de f\u00e9, segredo e resist\u00eancia nasceu o Tambor de Mina, tradi\u00e7\u00e3o religiosa que, at\u00e9 hoje, pulsa no Maranh\u00e3o, no Piau\u00ed e no Par\u00e1, especialmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Taynara encontrou essa narrativa em um momento de profunda transforma\u00e7\u00e3o pessoal. \u201cFoi um processo identit\u00e1rio mesmo, ainda estou nesse vi\u00e9s de letramento racial porque eu penso que \u00e9 um processo cont\u00ednuo e eterno\u201d, diz. Ela lembra que, naquela fase, \u201cestava me entendendo enquanto uma mulher preta, isso s\u00f3 na universidade, com 19 para 20 anos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O letramento racial, como ela define, chega como um processo de abrir os olhos para marcas que sempre estiveram ali: a escola que quase nunca mencionou rainhas africanas, o bombardeio de refer\u00eancias brancas, o incentivo ao cabelo alisado, a moda que n\u00e3o contemplava seus tra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, a gradua\u00e7\u00e3o em dan\u00e7a lhe dava linguagem para transformar essas descobertas em gesto, em cena, em pesquisa de corpo. \u201cEu sempre quis trazer a dan\u00e7a, j\u00e1 que hoje eu sou licenciada, como ato pol\u00edtico tamb\u00e9m\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse cruzamento entre identidade, pesquisa acad\u00eamica e pr\u00e1tica art\u00edstica que \u201cA Saga de Agotim\u00e9\u201d se afirma como projeto: n\u00e3o apenas uma coreografia, mas um manifesto f\u00edsico sobre o lugar da mulher preta na hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_4337-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2897\" style=\"width:587px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_4337-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_4337-300x225.jpg 300w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_4337-768x576.jpg 768w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_4337-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_4337-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A primeira montagem aconteceu no Curro Velho, em tr\u00eas dias de apresenta\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Letramento racial em movimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na primeira montagem, ainda no Curro Velho, \u201cA Saga de Agotim\u00e9\u201d j\u00e1 apontava para uma dire\u00e7\u00e3o clara: protagonismo feminino preto e uma narrativa afro-brasileira constru\u00edda de forma positiva, sem esconder a viol\u00eancia da escravid\u00e3o, mas tamb\u00e9m sem reduzir mulheres negras a corpos sofridos. \u201cA Agotim\u00e9 vem nesse processo de protagonismo afirmativo, afrodiasp\u00f3rico, afro-amaz\u00f4nido, para falar e para trazer para cena mulheres pretas que trazem uma narrativa afro-brasileira de forma positiva\u201d, explica Taynara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta que a orienta \u00e9 direta: \u201co que que n\u00f3s temos enquanto heran\u00e7a, enquanto africanidade, enquanto presen\u00e7a que percorre dentro do nosso estado, que \u00e9 regido por muita heran\u00e7a afro-brasileira?\u201d. O espet\u00e1culo, assim, se torna uma resposta pr\u00e1tica, sens\u00edvel, a essas quest\u00f5es: uma forma de contar, com dan\u00e7a, que o Par\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas floresta e rios, mas tamb\u00e9m terreiro, tambor, mina, vodum, ancestralidade que atravessa s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa primeira vers\u00e3o ficou restrita ao contexto da funda\u00e7\u00e3o. Foi vista por quem acompanhava as oficinas e as atividades do Curro Velho, e, depois de tr\u00eas noites, entrou em esp\u00e9cie de hiberna\u00e7\u00e3o. As jovens que participaram seguiram suas vidas, a diretora mergulhou em outros projetos, mas a ideia n\u00e3o deixou de latejar. A pr\u00f3pria Taynara seguia, paralelamente, aprofundando seus estudos, suas viv\u00eancias em dan\u00e7a afro, suas rela\u00e7\u00f5es com terreiros e movimentos negros, e consolidando a consci\u00eancia de que sua trajet\u00f3ria art\u00edstica e acad\u00eamica n\u00e3o poderia estar apartada da sua identidade de mulher preta amaz\u00f4nida. Em seu corpo, o letramento racial n\u00e3o \u00e9 apenas um conceito, mas uma pr\u00e1tica permanente: um \u201cprocesso eterno\u201d, como ela mesma define.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse percurso, a figura de Agotim\u00e9 continuou a acompanh\u00e1-la como esp\u00e9cie de espelho ancestral. A rainha que raspava ouro com as unhas e fundava uma religi\u00e3o com gestos discretos parecia conversar diretamente com a jovem professora da periferia que, entre quadras e salas de aula, tentava fazer da dan\u00e7a uma ferramenta de liberta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m, nessa identifica\u00e7\u00e3o, uma dimens\u00e3o de g\u00eanero que atravessa todo o projeto: o desejo de mostrar que mulheres negras, em diferentes \u00e9pocas e territ\u00f3rios, foram \u2013 e s\u00e3o \u2013 organizadoras de mundos, criadoras de pr\u00e1ticas, guardi\u00e3s de mem\u00f3rias e inven\u00e7\u00f5es espirituais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando surgiu a possibilidade de retomar e ampliar \u201cA Saga de Agotim\u00e9\u201d, Taynara decidiu que esse retorno ao palco seria ainda mais fiel ao princ\u00edpio de protagonismo feminino preto. Para a nova montagem, ela reaproximou-se de algumas das alunas que participaram da primeira experi\u00eancia e, ao mesmo tempo, reuniu um grupo de mulheres negras com trajet\u00f3rias diversas na dan\u00e7a, na atua\u00e7\u00e3o, na milit\u00e2ncia, no terreiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O elenco de dan\u00e7arinas, hoje, \u00e9 composto por Anast\u00e1cia Marshelly, Bianca Bahia, Elidiane Parente, Joj\u00f4 Pantoja, Khetelen Vitoria, Lo Ojuara, Rosy Lueji, Stella Mendes, Thamirys Monteiro e Wendd Evelyn, que volta como a int\u00e9rprete principal de Agotim\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"598\" src=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Ensaio-web-2-1024x598.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2887\" style=\"width:742px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Ensaio-web-2-1024x598.jpg 1024w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Ensaio-web-2-300x175.jpg 300w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Ensaio-web-2-768x449.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>O elenco atual do espet\u00e1culo \u00e9 formado por mulheres negras artistas de diferentes linguagens<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Wendd Evelyn chegou \u00e0 primeira montagem de \u201cA Saga de Agotim\u00e9\u201d quase por acaso: foi ao Curro Velho para acompanhar a oficina, sem a inten\u00e7\u00e3o de virar atriz, dan\u00e7arina ou protagonista de qualquer coisa. Ao longo do processo, por\u00e9m, se viu tomada pela hist\u00f3ria daquela rainha africana e pelo ambiente de acolhimento criado por Taynara e pelo grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De aluna que \u201cn\u00e3o tinha ido para participar\u201d, tornou-se o rosto da pr\u00f3pria Agotim\u00e9 em cena, descobrindo, aos poucos, que o seu corpo jovem, preto e amaz\u00f4nida podia ser ve\u00edculo de uma narrativa ancestral. A experi\u00eancia com o espet\u00e1culo n\u00e3o ficou apenas no palco: foi a partir desse encontro que Wendd passou a se aproximar do Tambor de Mina, at\u00e9 tornar-se hoje praticante da religi\u00e3o fundada por Agotim\u00e9, o que d\u00e1 \u00e0 sua interpreta\u00e7\u00e3o uma camada extra de pertencimento e responsabilidade espiritual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na montagem atual, Wendd j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais a menina que hesitava na porta da oficina; \u00e9 uma modelo que decide sair da passarela para abra\u00e7ar um novo desafio como atriz e dan\u00e7arina, consciente da import\u00e2ncia da personagem e da for\u00e7a da cultura preta que representa. Ela fala da dificuldade de sair da zona de conforto e de enfrentar a sensa\u00e7\u00e3o de que \u201cseu corpo n\u00e3o \u00e9 o corpo da dan\u00e7a\u201d, mas tamb\u00e9m sublinha o quanto o elenco e Taynara a abra\u00e7aram e ensinaram. \u201cElas me d\u00e3o seguran\u00e7a, criando um ambiente em que eu posso fazer o que o meu corpo permite\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No centro da cena, h\u00e1 uma rainha africana; em volta dela, uma constela\u00e7\u00e3o de rainhas contempor\u00e2neas, todas vindas de corpos e hist\u00f3rias que a cidade nem sempre enxerga com a import\u00e2ncia que t\u00eam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre essas trajet\u00f3rias, algumas se destacam como s\u00edntese da pr\u00f3pria proposta do espet\u00e1culo. Lo Ojuara, por exemplo, \u00e9 ligada ao movimento negro na Terra Firme, bairro perif\u00e9rico de Bel\u00e9m, e traz consigo a experi\u00eancia de articula\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, de mobiliza\u00e7\u00e3o, de fazer da arte instrumento de luta. Rosy Lueji, dan\u00e7arina e atriz, com participa\u00e7\u00e3o em filmes, \u00e9 tamb\u00e9m mulher de terreiro, habituada a transitar entre o universo religioso e o art\u00edstico, emprestando ao palco um modo de presen\u00e7a que n\u00e3o se limita \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o, mas se aproxima do rito. Elidiane Parente, por sua vez, \u00e9 uma mulher preta que constru\u00eda sua rela\u00e7\u00e3o com a dan\u00e7a em espa\u00e7os de igreja crist\u00e3, como professora de modalidades mais pr\u00f3ximas do street dance. Participar de \u201cA Saga de Agotim\u00e9\u201d significa, para ela, um deslocamento \u2013 uma esp\u00e9cie de retorno a uma africanidade que talvez n\u00e3o tivesse sido nomeada em sua trajet\u00f3ria, mas que atravessa seu corpo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a cena \u00e9 encarnada por mulheres, o ritmo que as conduz \u00e9 igualmente atravessado pela for\u00e7a feminina preta. As percussionistas Brena Corr\u00eaa e Katarina Chaves sustentam o ch\u00e3o sonoro do espet\u00e1culo, evocando tambores que n\u00e3o s\u00e3o apenas instrumentos musicais, mas portadores de mem\u00f3ria. O encontro com o tambor de crioula \u00e9 refor\u00e7ado pela participa\u00e7\u00e3o do grupo Filhos e Amigos de Cururupu, que traz para o palco a batida maranhense que dialoga diretamente com a origem da saga. A presen\u00e7a de Mestra Pretta Nzinga Jamile e de Maiara Almeida, convidadas especiais, amplia ainda mais a rede de mulheres negras que emprestam seus saberes ao projeto, costurando, em cena, diferentes gera\u00e7\u00f5es e territ\u00f3rios da di\u00e1spora.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_8201-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2901\" style=\"width:400px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_8201-768x1024.jpg 768w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_8201-225x300.jpg 225w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_8201-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_8201-1536x2048.jpg 1536w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_8201-scaled.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Wendd Evelyn voltou ao papel de Agotim\u00e9, que teve profundo impacto em sua identidade<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Wendd Evelyn, jovem que interpreta Agotim\u00e9, o convite de Taynara foi, ao mesmo tempo, surpresa e chamado. \u201cOlha, para mim \u00e9 algo muito gratificante fazer essa personagem t\u00e3o importante na hist\u00f3ria da cultura preta, principalmente assim\u201d, diz, com a voz ainda misturada \u00e0 timidez e ao orgulho. \u201cEu fico muito lisonjeada pela Taynara ter feito esse convite para mim\u201d. Quando fala da personagem, Wendd parece medir com cuidado a dimens\u00e3o da responsabilidade que carrega nos ombros: n\u00e3o se trata apenas de decorar passos, mas de dar corpo a uma mem\u00f3ria ancestral, de emprestar sua juventude a uma hist\u00f3ria que atravessou s\u00e9culos e oceanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O processo de montagem n\u00e3o se limita \u00e0 coreografia. A quadra virou esp\u00e9cie de grande ateli\u00ea aberto, onde se experimentam figurinos, se improvisam cen\u00e1rios, se testam combina\u00e7\u00f5es de luz e sombra. As pr\u00f3prias artistas participam da constru\u00e7\u00e3o visual do espet\u00e1culo, ajudando a costurar roupas, a ajustar adornos, a imaginar como representar, com poucos recursos materiais, a grandeza de uma corte africana transmutada em culto de mina na Amaz\u00f4nia. A cenotecnia de Cl\u00e1udio Bastos, a ilumina\u00e7\u00e3o de Malu Rabelo e a sonoplastia de Pawer Martins se articulam \u00e0 energia das int\u00e9rpretes, criando uma ambi\u00eancia em que o teatro abra\u00e7a o terreiro, o rito abra\u00e7a a arte, o passado abra\u00e7a o presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a de um int\u00e9rprete-tradutor de Libras, Gabriel Lucena, integra esse campo de cuidado. A montagem foi pensada com acessibilidade: as sess\u00f5es no Teatro Esta\u00e7\u00e3o Gas\u00f4metro ter\u00e3o tradu\u00e7\u00e3o em Libras e espa\u00e7o para pessoas com defici\u00eancia, reafirmando que a arte negra tamb\u00e9m se compromete com a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso. Na mesma dire\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica de ingressos afirma uma \u00e9tica concreta de inclus\u00e3o: os bilhetes custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia entrada), com direito \u00e0 meia n\u00e3o apenas para pessoas com defici\u00eancia, mas tamb\u00e9m para pessoas trans e m\u00e3es solo. Num pa\u00eds em que esses grupos enfrentam barreiras sistem\u00e1ticas para chegar aos equipamentos culturais, essa decis\u00e3o \u00e9 mais do que uma cortesia; \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de que \u201cA Saga de Agotim\u00e9\u201d n\u00e3o quer se restringir a uma elite de espectadores, mas falar diretamente a quem se reconhece \u2013 ou pode se reconhecer \u2013 na hist\u00f3ria que est\u00e1 sendo contada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando, nos dias 6 e 7 de agosto, as luzes do Teatro Esta\u00e7\u00e3o Gas\u00f4metro se acenderem e os tambores anunciarem o in\u00edcio da sess\u00e3o, ser\u00e1 mais do que um espet\u00e1culo que come\u00e7a. Ser\u00e1 a continuidade de uma linha que liga Daom\u00e9 \u00e0 Amaz\u00f4nia, minas de ouro \u00e0 quadra de escola, culto de mina ao palco, rainha africana a mulheres pretas da periferia de Bel\u00e9m. Na hist\u00f3ria de Agotim\u00e9, h\u00e1 um gesto que se repete silenciosamente: o ato de juntar, pacientemente, aquilo que o mundo n\u00e3o quer reconhecer como valioso: o p\u00f3 de ouro nas unhas, a dan\u00e7a na quadra, a oficina na funda\u00e7\u00e3o, a voz de uma jovem atriz, o letramento racial que se faz na carne e no gesto. Em cada uma dessas miudezas acumuladas, uma coroa vai sendo reconstitu\u00edda. E, quando a cortina se abrir, veremos que, apesar de todas as tentativas hist\u00f3ricas de apagamento, as rainhas negras seguem aqui, em movimento, escrevendo com o corpo aquilo que tanto tempo nos foi negado no papel.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-7387b849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_4342-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2899\" srcset=\"https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_4342-768x1024.jpg 768w, https:\/\/outrosnativos.com.br\/noticiapaidegua\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG_4342-225x300.jpg 225w, 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class=\"wp-block-paragraph\">Espet\u00e1culo: A Saga de Agotim\u00e9<br>Datas: 06 e 07 de agosto<br>Hor\u00e1rio: 19h00<br>Local: Teatro Esta\u00e7\u00e3o Gas\u00f4metro, Bel\u00e9m \u2013 PA<br>Acessibilidade: Tradu\u00e7\u00e3o em Libras e espa\u00e7o para pessoas com defici\u00eancia<br>Ingressos: R$ 20,00 (inteira) | R$ 10,00 (meia)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meia-entrada para: Pessoas trans e m\u00e3es solo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contato para imprensa:<br>Nome: Taynara Garcia<br>Telefone: (91) 8918-0902<br>E-mail: artesnegrasemmovimento@gmail.com<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FICHA T\u00c9CNICA:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coordena\u00e7\u00e3o de Produ\u00e7\u00e3o e Dire\u00e7\u00e3o geral<\/strong>: Taynara Garcia \u2013 <em>Artes Negras em Movimento<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Produ\u00e7\u00e3o Executiva:<\/strong> Elielton Alves \u2013 <em>Uka Uka Arte e Cultura<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Dan\u00e7arinas<\/strong>: Anast\u00e1cia Marshelly, Bianca Bahia, Elidiane Parente, Joj\u00f4 Pantoja, Khetelen Vitoria, Lo Ojuara, Rosy Lueji, Stella Mendes, Thamirys Monteiro, Wendd Evelyn<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Percussionistas: <\/strong>Brena Corr\u00eaa e Katarina Chaves<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Participa\u00e7\u00e3o especial: <\/strong>Mestra Pretta Nzinga Jamile, Maiara Almeida e Grupo de Tambor de Crioula Filhos e Amigos de Cururupu<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ilumina\u00e7\u00e3o:<\/strong> Malu Rabelo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Cenotecnia:<\/strong> Cl\u00e1udio Bastos<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sonoplastia:<\/strong> Pawer Martins<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Mika Nascimento<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Int\u00e9rprete Tradutor de Libras: <\/strong>Gabriel Lucena<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Capta\u00e7\u00e3o de bastidores e v\u00eddeos:<\/strong> Associa\u00e7\u00e3o Sociocultural Outros Nativos<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Capta\u00e7\u00e3o de imagens:<\/strong> Victor Peixe<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Designer gr\u00e1fico:<\/strong> Thayse Panda<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Parceiros:<\/strong> Curro Velho, Hounsou Store, Associa\u00e7\u00e3o Sociocultural Outros Nativos e Escola Estadual E.F Santo Afonso<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Patroc\u00ednio:&nbsp; <\/strong>PNAB (Pol\u00edtica Nacional Aldir Blanc), Secretaria Estadual de Cultura (SECULT), Governo do Par\u00e1, Minist\u00e9rio da Cultura, Governo Federal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A quadra da Escola Estadual Santo 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