O rapper coautor de “Espirais”, primeiro lugar na última edição do Festival Outros Nativos, é de Marituba e tem influência de Eminem e Racionais

Thomaz Capistana Costa, 23 anos, veste a camisa 23 dos Bulls, boné para trás, corrente prateada no peito e o microfone estendido na direção de quem olha a foto. A imagem ajuda a entender o personagem: Maverick, seu nome artístico, é um jovem que parece estar sempre a um verso de transformar a própria vida em rima.
Rapper, compositor prolífico e estudante de Engenharia Civil na UFPA, Maverick cresceu e mora em Marituba, Região Metropolitana de Belém. Foi ali, nas ruas da cidade, que o hip hop deixou de ser apenas entretenimento para se tornar projeto de vida. Aos 15 anos, ele começou como muitos: assistindo batalhas de rima, curioso, na plateia. Pouco tempo depois, já estava no centro da roda, ajudando a promover a cena local e criando espaços para que outros jovens também pudessem se expressar.
Esse movimento ele não fez sozinho. Ao lado do melhor amigo — colega de escola, de rua e de sonhos — hoje conhecido pelo nome artístico de Inu Yang, Thomaz começou algo que, com o tempo, cresceu para além da dupla: o coletivo Mirai-Clan. O que começou como dois garotos organizando encontros de rap em Marituba se transformou em uma crew com 10 integrantes, reunindo MCs, produtores e artistas que, juntos, fortalecem a cena e renovam o fôlego do hip hop na região.
É com Inu Yang que Maverick divide a faixa “Espirais”, música vencedora do Festival Outros Nativos 2025. A conquista coroou uma trajetória construída na base da insistência, do improviso e de uma confiança quase teimosa no próprio talento — individual e coletivo. O Mirai-Clan funciona como espécie de família artística, um lugar em que cada vitória é compartilhada e cada música acrescenta mais um degrau nesse projeto comum.
Maverick afirma ter mais de 600 músicas compostas. Ele escreve como quem precisa pôr para fora tudo o que vê, sente e pensa. Seu flow é acelerado, carregado de múltiplas referências — da vida na quebrada às grandes escolas do rap nacional e internacional. Entre suas influências, ele cita Eminem e, no Brasil, Racionais MC’s, Emicida e Sabotage: nomes que, assim como ele, usa(ra)m a palavra como instrumento de enfrentamento e sobrevivência.
“Acho importante citar o Wu-Tang Clan e o Joey Bada$$. No Brasil, o BK’ e coletivos como o Haikaiss, Costa Gold, Bloco7 e a galera da old school do boombap no geral são grandes influências”, confirma.
Essa produção intensa desemboca em um projeto ambicioso: o álbum “New Era”. O disco, que já está há três anos em construção, é pensado por Thomaz como um trabalho “cheio”, um álbum extenso, no melhor sentido da palavra. Para ele, lançar um projeto robusto, com muitas faixas, é a única forma honesta de dar conta da avalanche de sentimentos, ideias e experiências que carrega. “Nova Era” (em português) não é só um título; é a declaração de intenção de quem se vê iniciando um novo ciclo — pessoal, artístico e coletivo.
Apesar da intensidade nas letras, a rotina é de disciplina. Maverick não usa nenhum tipo de droga e é focado no trabalho: está sempre “fazendo o corre”, equilibrando os estudos de Engenharia Civil com a carreira artística. Perto da formatura, ele planeja atuar por algum tempo na área, mas deixa claro que seu grande objetivo é viver de rap — fazer com que a arte seja suficiente para sustentar a vida material e alimentar a vida interior.

O dia da apresentação no Festival Outros Nativos resume bem esse choque entre cansaço e vocação. Na véspera, ele e Inu Yang haviam virado a noite em batalhas de rima, se apresentando sem parar. Chegaram ao festival exaustos, o corpo pedindo descanso, mas com a adrenalina no máximo. Quando subiram ao palco, o desgaste físico se dissolveu na energia do público e na urgência de dizer o que precisava ser dito. Foi nesse clima que “Espirais” se tornou a música vencedora da edição.
Após o anúncio do resultado, Maverick se emocionou. No microfone, revelou que, poucas semanas antes, havia pensado em desistir da própria vida. Aquele momento, diante de tantas pessoas, com o parceiro ao lado e o troféu nas mãos, simbolizava mais do que um prêmio: era a prova de que insistir tinha valido a pena. A cena deixou claro que o rap, para ele, não é só estética, nem apenas carreira — é ferramenta de sobrevivência psíquica, um pacto íntimo de seguir em frente.
A vitória no festival também jogou luz sobre as contradições da cena em Belém e região. Maverick fala das tretas, disputas e vaidades que atravessam o universo do rap local, mas faz questão de se posicionar como ponte, não muro. Seu esforço é o de agregar: somar vozes, unir gerações, conectar Marituba ao mapa maior do hip hop brasileiro. “Em algumas situações reuni pessoas que eu nem sabia que tinham treta uma com a outra, e sempre dei um jeito de conciliar”, conta.
O álbum em construção está recheado de participações em feats. Entre elas, nomes como Moraes MV e Xico Doido, ambos vencedores do Festival Outros Nativos em outras edições. O projeto reforça a ideia de que Maverick está menos interessado em ser um ponto isolado de sucesso e mais disposto a construir uma rede, um circuito em que o triunfo de um fortaleça o caminho de muitos.
Na foto, o microfone é estendido como convite e desafio: é como se Maverick dissesse que o palco não é só dele, que a palavra pode circular, que a rua cabe dentro da música e a música cabe dentro da vida. Entre cálculos estruturais na universidade, as reuniões do Mirai-Clan e rimas aceleradas nos becos de Marituba, ele ergue outra engenharia: a de um futuro em que, se tudo correr como ele planeja, o rap será a principal base de sustentação. Thomaz Capistana Costa é Maverick — um garoto que transformou o impulso de desistir na força de continuar rimando. E, no rastro das suas espirais sonoras e dessa “Nova Era” que prepara há anos, começa a desenhar um lugar definitivo para seu nome na cartografia do rap amazônico.


