Rainha debaixo das unhas: mulheres pretas da periferia de Belém reencenam “A Saga de Agotimé”

O elenco realizou os ensaios na Escola Estadual Santo Afonso em Belém

A quadra da Escola Estadual Santo Afonso, no bairro do Telégrafo, em Belém, tem sido, nas últimas semanas, um território de reinvenção. Entre linhas de futsal já quase apagadas e traves que lembram campeonatos escolares de outros tempos, o som que domina o espaço agora não é o do apito do juiz, mas o dos tambores, das palmas, das vozes que se aquecem. No lugar de uniformes esportivos, saias rodadas, panos coloridos, turbantes, corpos de mulheres pretas em deslocamento constante. É ali que um grupo de artistas fabrica, passo a passo, “A Saga de Agotimé”, espetáculo de dança afro dirigido por Taynara Garcia, que estreia nos dias 6 e 7 de agosto, às 19h, no Teatro Estação Gasômetro, em Belém. A montagem, contudo, não é apenas mais um título na agenda cultural da cidade: é um rito cênico, um gesto político e uma convocação à memória de uma rainha africana que o Brasil tentou reduzir à condição de escravizada, mas que insistiu em guardar sua realeza debaixo das unhas.

Antes de chegar ao Gasômetro, o espetáculo atravessa uma história que mistura formação universitária, oficinas de dança, letramento racial e a força da cultura negra periférica. Taynara Garcia, 29 anos, mulher preta, moradora do Telégrafo, licenciada em dança pela Universidade Federal do Pará e atualmente mestranda, gosta de narrar o surgimento da montagem a partir de um ponto preciso: a Fundação Curro Velho, instituição cultural de Belém que há décadas forma crianças, jovens e adultos em diversas artes. Foi ali, em oficinas de dança afro-brasileira que ela ministrava, que a ideia de transformar o resultado das aulas em espetáculo começou a tomar corpo. Em um primeiro momento, a proposta era simples: apresentar, ao final do ciclo, o que vinha sendo construído, em formato de mostra. Mas o processo foi ganhando outra densidade.

“Eu estava ministrando aulas para as turmas de dança afro-brasileiras, e fomos convidadas a apresentar o resultado em um formato de espetáculo, então a saga de Agotimé começa a aparecer nesse processo”, conta Taynara, relembrando que aquele convite deslocou a oficina para o campo da criação cênica. O que poderia ser apenas uma apresentação de encerramento virou, então, a primeira encarnação de uma narrativa que não caberia mais só na sala de aula. Ela e as alunas conseguiram, naquele momento, apresentar “durante três noites um espetáculo que tinha danças afro-brasileiras, algumas danças tradicionais beninenses e percussão”.

Taynara Garcia destaca que partiu de uma pesquisa que envolveu também sua própria identidade

Entre experimentos coreográficos e pesquisas de movimento, a história de uma rainha africana, trazida à força para o Brasil, encontrava forma no corpo de jovens mulheres negras amazônidas.

Essa rainha é Agotimé. A tradição oral e estudos sobre religiões afro-brasileiras contam que ela era uma rainha do reino do Daomé, na África Ocidental, capturada, traficada e escravizada em território brasileiro. No Maranhão, especialmente, circula a narrativa de que ela foi levada para trabalhar em minas de ouro. Ali, submetida ao regime brutal da escravidão, Agotimé teria encontrado uma brecha para exercer, ainda que em silêncio, sua astúcia e sua realeza: acumulava pó de ouro debaixo das unhas, raspando, guardando, escondendo o mínimo que podia.

Com o tempo, aquele ouro, minúsculo ao olhar de quem a vigiava, tornou-se suficiente para que ela comprasse sua própria liberdade. A partir dessa conquista, que desloca a posição de vítima passiva para a de agente de sua própria história, Agotimé passou a reunir, em torno de si, outras pessoas negras que a reconheciam como rainha.

Como a ordem colonial não toleraria abertamente uma realeza africana em solo brasileiro, os cultos organizados por ela aconteciam de maneira discreta, quase clandestina. Dessa trama de fé, segredo e resistência nasceu o Tambor de Mina, tradição religiosa que, até hoje, pulsa no Maranhão, no Piauí e no Pará, especialmente.

Taynara encontrou essa narrativa em um momento de profunda transformação pessoal. “Foi um processo identitário mesmo, ainda estou nesse viés de letramento racial porque eu penso que é um processo contínuo e eterno”, diz. Ela lembra que, naquela fase, “estava me entendendo enquanto uma mulher preta, isso só na universidade, com 19 para 20 anos”.

O letramento racial, como ela define, chega como um processo de abrir os olhos para marcas que sempre estiveram ali: a escola que quase nunca mencionou rainhas africanas, o bombardeio de referências brancas, o incentivo ao cabelo alisado, a moda que não contemplava seus traços.

Ao mesmo tempo, a graduação em dança lhe dava linguagem para transformar essas descobertas em gesto, em cena, em pesquisa de corpo. “Eu sempre quis trazer a dança, já que hoje eu sou licenciada, como ato político também”, afirma.

É nesse cruzamento entre identidade, pesquisa acadêmica e prática artística que “A Saga de Agotimé” se afirma como projeto: não apenas uma coreografia, mas um manifesto físico sobre o lugar da mulher preta na história.

A primeira montagem aconteceu no Curro Velho, em três dias de apresentação

Letramento racial em movimento

Na primeira montagem, ainda no Curro Velho, “A Saga de Agotimé” já apontava para uma direção clara: protagonismo feminino preto e uma narrativa afro-brasileira construída de forma positiva, sem esconder a violência da escravidão, mas também sem reduzir mulheres negras a corpos sofridos. “A Agotimé vem nesse processo de protagonismo afirmativo, afrodiaspórico, afro-amazônido, para falar e para trazer para cena mulheres pretas que trazem uma narrativa afro-brasileira de forma positiva”, explica Taynara.

A pergunta que a orienta é direta: “o que que nós temos enquanto herança, enquanto africanidade, enquanto presença que percorre dentro do nosso estado, que é regido por muita herança afro-brasileira?”. O espetáculo, assim, se torna uma resposta prática, sensível, a essas questões: uma forma de contar, com dança, que o Pará não é apenas floresta e rios, mas também terreiro, tambor, mina, vodum, ancestralidade que atravessa séculos.

Essa primeira versão ficou restrita ao contexto da fundação. Foi vista por quem acompanhava as oficinas e as atividades do Curro Velho, e, depois de três noites, entrou em espécie de hibernação. As jovens que participaram seguiram suas vidas, a diretora mergulhou em outros projetos, mas a ideia não deixou de latejar. A própria Taynara seguia, paralelamente, aprofundando seus estudos, suas vivências em dança afro, suas relações com terreiros e movimentos negros, e consolidando a consciência de que sua trajetória artística e acadêmica não poderia estar apartada da sua identidade de mulher preta amazônida. Em seu corpo, o letramento racial não é apenas um conceito, mas uma prática permanente: um “processo eterno”, como ela mesma define.

Nesse percurso, a figura de Agotimé continuou a acompanhá-la como espécie de espelho ancestral. A rainha que raspava ouro com as unhas e fundava uma religião com gestos discretos parecia conversar diretamente com a jovem professora da periferia que, entre quadras e salas de aula, tentava fazer da dança uma ferramenta de libertação. Há também, nessa identificação, uma dimensão de gênero que atravessa todo o projeto: o desejo de mostrar que mulheres negras, em diferentes épocas e territórios, foram – e são – organizadoras de mundos, criadoras de práticas, guardiãs de memórias e invenções espirituais.

Quando surgiu a possibilidade de retomar e ampliar “A Saga de Agotimé”, Taynara decidiu que esse retorno ao palco seria ainda mais fiel ao princípio de protagonismo feminino preto. Para a nova montagem, ela reaproximou-se de algumas das alunas que participaram da primeira experiência e, ao mesmo tempo, reuniu um grupo de mulheres negras com trajetórias diversas na dança, na atuação, na militância, no terreiro.

O elenco de dançarinas, hoje, é composto por Anastácia Marshelly, Bianca Bahia, Elidiane Parente, Jojô Pantoja, Khetelen Vitoria, Lo Ojuara, Rosy Lueji, Stella Mendes, Thamirys Monteiro e Wendd Evelyn, que volta como a intérprete principal de Agotimé.

O elenco atual do espetáculo é formado por mulheres negras artistas de diferentes linguagens

Wendd Evelyn chegou à primeira montagem de “A Saga de Agotimé” quase por acaso: foi ao Curro Velho para acompanhar a oficina, sem a intenção de virar atriz, dançarina ou protagonista de qualquer coisa. Ao longo do processo, porém, se viu tomada pela história daquela rainha africana e pelo ambiente de acolhimento criado por Taynara e pelo grupo.

De aluna que “não tinha ido para participar”, tornou-se o rosto da própria Agotimé em cena, descobrindo, aos poucos, que o seu corpo jovem, preto e amazônida podia ser veículo de uma narrativa ancestral. A experiência com o espetáculo não ficou apenas no palco: foi a partir desse encontro que Wendd passou a se aproximar do Tambor de Mina, até tornar-se hoje praticante da religião fundada por Agotimé, o que dá à sua interpretação uma camada extra de pertencimento e responsabilidade espiritual.

Na montagem atual, Wendd já não é mais a menina que hesitava na porta da oficina; é uma modelo que decide sair da passarela para abraçar um novo desafio como atriz e dançarina, consciente da importância da personagem e da força da cultura preta que representa. Ela fala da dificuldade de sair da zona de conforto e de enfrentar a sensação de que “seu corpo não é o corpo da dança”, mas também sublinha o quanto o elenco e Taynara a abraçaram e ensinaram. “Elas me dão segurança, criando um ambiente em que eu posso fazer o que o meu corpo permite”, explica.

No centro da cena, há uma rainha africana; em volta dela, uma constelação de rainhas contemporâneas, todas vindas de corpos e histórias que a cidade nem sempre enxerga com a importância que têm.

Entre essas trajetórias, algumas se destacam como síntese da própria proposta do espetáculo. Lo Ojuara, por exemplo, é ligada ao movimento negro na Terra Firme, bairro periférico de Belém, e traz consigo a experiência de articulação comunitária, de mobilização, de fazer da arte instrumento de luta. Rosy Lueji, dançarina e atriz, com participação em filmes, é também mulher de terreiro, habituada a transitar entre o universo religioso e o artístico, emprestando ao palco um modo de presença que não se limita à interpretação, mas se aproxima do rito. Elidiane Parente, por sua vez, é uma mulher preta que construía sua relação com a dança em espaços de igreja cristã, como professora de modalidades mais próximas do street dance. Participar de “A Saga de Agotimé” significa, para ela, um deslocamento – uma espécie de retorno a uma africanidade que talvez não tivesse sido nomeada em sua trajetória, mas que atravessa seu corpo.

Se a cena é encarnada por mulheres, o ritmo que as conduz é igualmente atravessado pela força feminina preta. As percussionistas Brena Corrêa e Katarina Chaves sustentam o chão sonoro do espetáculo, evocando tambores que não são apenas instrumentos musicais, mas portadores de memória. O encontro com o tambor de crioula é reforçado pela participação do grupo Filhos e Amigos de Cururupu, que traz para o palco a batida maranhense que dialoga diretamente com a origem da saga. A presença de Mestra Pretta Nzinga Jamile e de Maiara Almeida, convidadas especiais, amplia ainda mais a rede de mulheres negras que emprestam seus saberes ao projeto, costurando, em cena, diferentes gerações e territórios da diáspora.

Wendd Evelyn voltou ao papel de Agotimé, que teve profundo impacto em sua identidade

Para Wendd Evelyn, jovem que interpreta Agotimé, o convite de Taynara foi, ao mesmo tempo, surpresa e chamado. “Olha, para mim é algo muito gratificante fazer essa personagem tão importante na história da cultura preta, principalmente assim”, diz, com a voz ainda misturada à timidez e ao orgulho. “Eu fico muito lisonjeada pela Taynara ter feito esse convite para mim”. Quando fala da personagem, Wendd parece medir com cuidado a dimensão da responsabilidade que carrega nos ombros: não se trata apenas de decorar passos, mas de dar corpo a uma memória ancestral, de emprestar sua juventude a uma história que atravessou séculos e oceanos.

O processo de montagem não se limita à coreografia. A quadra virou espécie de grande ateliê aberto, onde se experimentam figurinos, se improvisam cenários, se testam combinações de luz e sombra. As próprias artistas participam da construção visual do espetáculo, ajudando a costurar roupas, a ajustar adornos, a imaginar como representar, com poucos recursos materiais, a grandeza de uma corte africana transmutada em culto de mina na Amazônia. A cenotecnia de Cláudio Bastos, a iluminação de Malu Rabelo e a sonoplastia de Pawer Martins se articulam à energia das intérpretes, criando uma ambiência em que o teatro abraça o terreiro, o rito abraça a arte, o passado abraça o presente.

A presença de um intérprete-tradutor de Libras, Gabriel Lucena, integra esse campo de cuidado. A montagem foi pensada com acessibilidade: as sessões no Teatro Estação Gasômetro terão tradução em Libras e espaço para pessoas com deficiência, reafirmando que a arte negra também se compromete com a democratização do acesso. Na mesma direção, a política de ingressos afirma uma ética concreta de inclusão: os bilhetes custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia entrada), com direito à meia não apenas para pessoas com deficiência, mas também para pessoas trans e mães solo. Num país em que esses grupos enfrentam barreiras sistemáticas para chegar aos equipamentos culturais, essa decisão é mais do que uma cortesia; é uma declaração de que “A Saga de Agotimé” não quer se restringir a uma elite de espectadores, mas falar diretamente a quem se reconhece – ou pode se reconhecer – na história que está sendo contada.

Quando, nos dias 6 e 7 de agosto, as luzes do Teatro Estação Gasômetro se acenderem e os tambores anunciarem o início da sessão, será mais do que um espetáculo que começa. Será a continuidade de uma linha que liga Daomé à Amazônia, minas de ouro à quadra de escola, culto de mina ao palco, rainha africana a mulheres pretas da periferia de Belém. Na história de Agotimé, há um gesto que se repete silenciosamente: o ato de juntar, pacientemente, aquilo que o mundo não quer reconhecer como valioso: o pó de ouro nas unhas, a dança na quadra, a oficina na fundação, a voz de uma jovem atriz, o letramento racial que se faz na carne e no gesto. Em cada uma dessas miudezas acumuladas, uma coroa vai sendo reconstituída. E, quando a cortina se abrir, veremos que, apesar de todas as tentativas históricas de apagamento, as rainhas negras seguem aqui, em movimento, escrevendo com o corpo aquilo que tanto tempo nos foi negado no papel.

Wendd durante a primeira montagem, uma jovem que veio conhecer a oficina
Wendd para esta a montagem atual, transformada pela figura de Agotimé

SERVIÇO:

Espetáculo: A Saga de Agotimé
Datas: 06 e 07 de agosto
Horário: 19h00
Local: Teatro Estação Gasômetro, Belém – PA
Acessibilidade: Tradução em Libras e espaço para pessoas com deficiência
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) | R$ 10,00 (meia)

Meia-entrada para: Pessoas trans e mães solo.

Contato para imprensa:
Nome: Taynara Garcia
Telefone: (91) 8918-0902
E-mail: artesnegrasemmovimento@gmail.com

FICHA TÉCNICA:

Coordenação de Produção e Direção geral: Taynara Garcia – Artes Negras em Movimento

Produção Executiva: Elielton Alves – Uka Uka Arte e Cultura

Dançarinas: Anastácia Marshelly, Bianca Bahia, Elidiane Parente, Jojô Pantoja, Khetelen Vitoria, Lo Ojuara, Rosy Lueji, Stella Mendes, Thamirys Monteiro, Wendd Evelyn

Percussionistas: Brena Corrêa e Katarina Chaves

Participação especial: Mestra Pretta Nzinga Jamile, Maiara Almeida e Grupo de Tambor de Crioula Filhos e Amigos de Cururupu

Iluminação: Malu Rabelo

Cenotecnia: Cláudio Bastos

Sonoplastia: Pawer Martins

Produção: Mika Nascimento

Intérprete Tradutor de Libras: Gabriel Lucena

Captação de bastidores e vídeos: Associação Sociocultural Outros Nativos

Captação de imagens: Victor Peixe

Designer gráfico: Thayse Panda

Parceiros: Curro Velho, Hounsou Store, Associação Sociocultural Outros Nativos e Escola Estadual E.F Santo Afonso

Patrocínio:  PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), Secretaria Estadual de Cultura (SECULT), Governo do Pará, Ministério da Cultura, Governo Federal