Sacramenta deu destaque para criadoras que teriam pouca acessibilidade a eventos de moda e ainda promoveu a união de diferentes coletivos trabalhando em parceria na execução do projeto

A periferia da Região Metropolitana de Belém mostrou seu talento na moda e proporcionou um domingo marcante para esse segmento no Pará. O I Desfile de Moda Comunitária da Sacramenta aconteceu no dia 28 de junho, no corredor da Economia Criativa do Parque da Cidade em Belém, e consagrou como vencedora a estilista Leila Maia, com o vestido “Moira da Amazônia”.
Apresentada pela modelo Maria Eduarda, a peça ganhadora foi toda feita em técnica de macramê (um trançado de fios feito apenas com nós) com retalhos e uma armação com fios de telefonia e Internet. “Com esse material descartado eu fiz a minha peça e levei 16 dias, seis horas por dia, confeccionando-a”, explica a vencedora do concurso, que recebeu um prêmio de R$ 2 mil para continuar produzindo sua arte.
Realização do coletivo Mulheres Empreendedoras da Sacramenta e Associação Sociocultural Outros Nativos, a iniciativa é inédita na periferia de Belém. Desde o início o projeto contou com o apoio do Movimento Moda Paraense, coordenado pela professora e designer de moda Alcimara Braga. “Isso deu uma grande repercussão para o evento. Não imaginávamos que seria assim”, conta Thais Helene Martins, coordenadora do coletivo de Mulheres Empreendedoras e proponente do projeto.

Na fase de execução, o Somos Periferia de Ananindeua teve atuação fundamental para o sucesso do evento. “Eles cederam profissionais da moda, como produtores e modelos, e ajudaram a coordenar o processo de entrada e saída da passarela, o que foi essencial para que tudo ocorresse de forma satisfatória”, explica Nicobates, coordenador da Ason e um dos produtores do evento.
O desfile também deu destaque para outras artistas. A estilista belenense Bianca Pantoja trouxe à passarela a peça “Taiguara”, mostrando um pouco do que produz para sua marca autoral, a Biamar Crochê.
Já Ketyla Cardoso apresentou seu trabalho “Vestido Jeans Recriado em Crochê”. Vinda de Barcarena especialmente para participar do desfile, ela, junto com Bianca, ficou em 2º lugar. Ambas tiveram a mesma nota do jurí. “Ajudou a projetar muito o meu trabalho, até saí no jornal local da minha cidade”, disse Ketyla, orgulhosa.
O terceiro lugar ficou com Marilda Silva, costureira da Sacramenta com mais de 60 anos e que trouxe para o desfile a peça “Helena”, em que detalha parte de seus conhecimentos e presta homenagem a alguém importante para sua história. “Foi a pessoa que me acolheu durante os cinco anos e meio em que trabalhei em seu ateliê, e quis contar um pouco dessa minha história”, diz Marilda.
Um dos destaques da programação foi também o painel “Moda Comunitária: do território para o mundo” que iniciou às 18h. Com mediação da designer de moda, diretora criativa e curadora do desfile comunitário Jacque Carvalho, a conversa promoveu uma reflexão sobre o fazer criativo da moda nas periferias e como força transformadora na vida das pessoas.

O papo contou com a participação do historiador, antropólogo, pesquisador em Moda e especialista em História da Amazônia Rui Martins Jr., e da professora fundadora do Movimento Moda Paraense Alcimara Braga. Durante a conversa, Rui destacou como o conhecimento empregado na produção das peças é um saber que precisa ser cultivado e, principalmente, valorizado como ferramenta para as identidades territoriais de seus estilistas, gerando oportunidades e fortalecendo as comunidades periféricas da Região Metropolitana de Belém. Alcimara assinalou como a moda na Amazônia é calcada nessa resistência, e que iniciativas como o Desfile de Moda Comunitária estimulam os fazedores que a mostrar o que sabem fazer.
Outras Atrações – O público do Parque da Cidade também acompanhou uma extensa programação, com pocket shows de Ruth Clark, Thaís Badu e MC Believe, e uma mostra em formato de desfile não competitivo com estilistas e modelos convidados, também contando com os artistas Believe e Thaís Badu desfilando.


A feira de artesanato e gastronomia também teve destaque, contando com quiosques do coletivo de Mulheres Empreendedoras da Sacramenta e de expositores externos, fruto de chamamento público.


Para os organizadores, o I Desfile de Moda Comunitária da Sacramenta representa a valorização dos criadores independentes e para o fortalecimento da economia criativa nos territórios periféricos de Belém. A iniciativa reafirma o potencial da moda comunitária como instrumento de transformação social, de geração de oportunidades e fortalecimento das identidades amazônicas.
E a promessa da próxima edição já esquenta as ideias da comunidade, como Jacque bem pontua: “Tem que ter todos os anos porque há muita produção nas comunidades”.
