Câmara Municipal de Belém corrige omissão sobre a morte do precursor da capoeira paraense e entrega comenda à família de Raimundo Pereira de Araújo

A família de Raimundo Pereira de Araújo, um dos praticantes mais importantes da história da capoeira paraense, recebeu, no último dia 29 de maio, a comenda “Mestre Mundico”. A singularidade da cerimônia está no fato de que “Mundico”, ou Mestre Ray, como também era conhecido, é o próprio Raimundo.
Apesar de ter falecido em fevereiro, aos 70 anos, em decorrência de complicações provocadas pelo diabetes, Mundico fez a passagem sob constrangedor silêncio da classe política e da mídia paraense.
Mestre Mundico é considerado o grande precursor da capoeira no estado, sendo responsável pela formação de pelo menos uma centena de mestres e contramestres. Sua linhagem forma a quase totalidade da comunidade de capoeiristas no estado do Pará, atualmente.
Esse constrangedor silêncio sobre a trajetória de Mestre Mundico só pôde ser reparado quando a medalha que leva seu nome foi oferecida ao Mestre Nazareno, atual presidente da Federação Paraense de Capoeira, com 45 anos dedicados a essa arte no Pará.
“Eu não poderia receber uma homenagem com o nome de Mestre Mundico, sem que ele mesmo a tivesse recebido ainda em vida. Quando eu o conheci ele já era Mestre”, disse Nazareno na sede de sua Associação Rei de Capoeira, situada no Paracuri I, em Icoaraci, quando a vereadora Vivi Reis foi levar a comenda ao próprio Nazareno e à família de Mundico.
O legado de Mestre Mundico permanece em vários grupos de capoeira que descendem de seu trabalho, como o Raízes Senzala. Fundado em 1990, hoje é administrado por Mestre Diabinho, irmão de Mundico. Leonardo Pereira Araújo, ou Mestre Leonardo, como também é conhecido, mantém o grupo na Sacramenta, onde ele e o irmão cresceram e juntos o fundaram. “A semente que ele plantou, ainda continua. A Associação de Capoeira Raízes Senzala tem hoje em média de 50 alunos treinando no legado de Mestre Mundico”, disse Diabinho.
Emocionada, a filha de Mestre Ray Mundico, Railiane Araújo, ressalta como essa homenagem não é apenas simbólica, mas também um instrumento de preservação. “Essa comenda em homenagem a meu pai é muito importante para a salvaguarda da capoeira, e todo esse legado que ele deixou”, explica.
Trajetória – Mestre Mundico, Raimundo Pereira de Araújo, construiu sua trajetória na capoeira de Belém de forma singular, combinando autodidatismo com aprendizado em rodas de rua. Ainda na década de 1970, viu na televisão uma reportagem sobre capoeira e se fascinou pelo gingado e pelo som do berimbau. A partir daí, comprou o livro Capoeira Sem Mestre, de Lamartine Costa, e passou a treinar sozinho, estudando gestos, golpes e fundamentos a partir das ilustrações e orientações do livro.
Ao mesmo tempo, começou a frequentar as rodas da Praça da República, onde jogava com mestres e praticantes que vinham de outros estados, especialmente do Maranhão e da Bahia, e que muitas vezes estavam apenas de passagem por Belém.
Assim, num cenário em que havia mestres atuando no Pará, mas quase sempre oriundos de fora e em trânsito, Mundico formou-se na mistura entre esse convívio com capoeiristas visitantes e o estudo solitário. Ou quase. Em casa, Mundico ensinava os irmãos mais novos, Expedito e Leonardo. Leonardo, então com cinco anos de idade, tomou gosto e permaneceu na capoeira, tendo herdado o nome Raízes Senzala, com o qual iniciou seu próprio grupo quando Mundico se aposentou graças à doença.
Além disso, ele foi mestre de bateria de escola de samba, letrista e animador de outras manifestações populares, como o carimbó. A comenda “Mestre Mundico” foi criada em 2024 mas nunca chegou a ser entregue ao mestre, que na época estava vivo, mas, cego e com as pernas amputadas, não conseguiu receber a honraria na Câmara Municipal.